Bolsonaro atrás das grades

Ascensão e prisão de Bolsonaro, o ‘Messias’ do golpismo e seus Generais ‘apóstolos da ditadura’.

Este é um artigo de convidado de Saulo Corleone, cujo Instagram você pode encontrar aqui. Agradecemos a Saulo por este excelente ensaio.

Desde o início de sua carreira militar, Bolsonaro foi doutrinado numa ideologia que paira no ar dentro dos quartéis que é a doutrina de Segurança Nacional, um conjunto de princípios político-militares que incentivam o protagonismo militar na política. Segundo a doutrina, os militares são os verdadeiros guardiões da Constituição, da Segurança e da Ordem Nacional contra os inimigos internos (movimentos sociais, a esquerda, os comunistas, trabalhadores, sindicatos), ou seja, são os tutores da democracia e uma espécie de Quarto Poder da República, acima do Presidente, do Parlamento e da Suprema Corte.

Eles podem dar um golpe a qualquer momento, se existir uma série de fatores como hegemonia sobre boa parte da sociedade, apoio da burguesia ou parte dela, da imprensa, apoio internacional e condições favoráveis para o ato. A doutrina de Segurança Nacional é um resquício dos tempos da guerra fria, do medo do comunismo internacional e dos EUA e sua política de intervenção do que eles chamam de ‘nosso quintal’, incentivando e ajudando os ditadores militares da América Latina como Pinochet ou o apoio aos militares golpistas do Brasil em 1964 que instauraram uma ditadura.

O golpe empresarial-militar de 1964 pode ser lido como uma via prussiana no capitalismo dependente. A crise brasileira dos anos 60 bloqueou as reformas de base (agrária, urbana, educacional), preservou o poder das elites agrárias e empresariais, reorganizou o Estado para acelerar a industrialização, reprimiu a participação popular e sindical e alinhou o país ao capitalismo dependente internacional. Deram o golpe no Presidente João Goulart, um trabalhista e social-democrata, com o incentivo do presidente Kennedy (EUA) dizendo que Jango era um comunista prestes a dar um golpe e implantar uma ditadura. Para salvar o país dos supostos comunistas, os militares implantaram exatamente o que diziam combater, uma ditadura.

Bolsonaro era uma espécie de sindicalista militar, no contexto da redemocratização dos anos 80, foi eleito vereador do Rio de Janeiro (1989), se beneficiando da redemocratização burguesa e da impunidade pós-ditadura. Não tivemos um Tribunal de Nuremberg no fim do regime e os torturadores ficaram impunes com a anistia total e irrestrita, até para crimes inafiançáveis como o de tortura, logo após a ‘abertura lenta, gradual e segura’, uma estratégia dos ditadores militares brasileiros, principalmente do Ernesto Geisel (1974-1979), para transicionar do regime autoritário para um governo civil, controlando o processo com as intenção de evitar rupturas e a guinada à esquerda. Essa ausência de punição institucional reflete a função histórica das Forças Armadas: defender a continuidade da ordem capitalista e reprimir ações que ameacem diretamente os interesses e as estruturas de poder que sustentam a acumulação capitalista.

A Ascensão

Ao longo das décadas em que Bolsonaro viveu às margens da política brasileira, alimentando-se do ressentimento militar pelo estigma da ditadura e do desespero de uma população abandonada à violência diária no Rio de Janeiro, o capitão reformado aproveitou-se para inserir todo o seu clã na política Carioca. Como patriarca, sua influência na família colocou-o em uma posição única, movida pelo ego de comandar uma tropa de caricaturas de si próprio – carinhosamente apelidadas de 01, 02, 03 e 04, cabe aqui o nobre apelido de ‘Irmãos Metralha’ (die Panzerknacker, Disney) . Submetidos ao pai, apoiados por militares e facções criminosas de policiais organizados para atuar como gangues, o clã Bolsonaro já ocupou todas as instâncias do poder legislativo brasileiro.

Bolsonaro logo incluiu sua família na política, como bom patrimonialista, a primeira foi a sua primeira esposa e logo depois o primeiro filho, Carlos Bolsonaro, que o pai colocou para ser candidato nas eleições contra a própria mãe, que queria se divorciar. Carlos foi instruído pelo pai durante a campanha para atacar a própria mãe, que não conseguiu se reeleger, e Carlos foi eleito Vereador do Rio de Janeiro, depois os outros irmãos também entraram na política.

A carreira militar de Bolsonaro foi pífia, sendo preso diversas vezes e chegou a ser expulso do Exército, num julgamento sobre um atentado planejado por Bolsonaro, que queria explodir bombas caseiras pelo Rio de Janeiro e culpar os comunistas. O plano dessa série de atentados organizados ao redor do Brasil por diversas organizações de extrema-direita era frear a redemocratização e voltar para a ditadura, de preferência com o setor chamado de ‘linha dura’ do Exército, responsáveis pelos ‘anos de chumbo’, período mais autoritário, repressivo e sanguinário da ditadura. Por isso, Bolsonaro nunca chegou à alta patente. É muito citada a frase do ex-ditador, o General Ernesto Geisel, que chamou Bolsonaro de “um mau militar”. Nunca foi um grande estrategista ou um político hábil, no parlamento fazia parte do grupo chamado de ‘baixo clero’, grupo de parlamentares sem relevância política e com uma incapacidade monumental de coalizão, criar consensos e aprovar projetos próprios no Congresso.

Foi eleito num contexto de um golpe que boa parte das elites deram à presidenta Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores), que sofreu uma destituição do cargo por crimes não cometidos e que é hoje a presidenta do BRICS. Criou-se uma rede criminosa para supostamente combater a corrupção no Brasil, a Operação Lava-Jato.

Havia um conluio entre um Juiz Ladrão (Sérgio Moro, atualmente Senador), que favorecia a parte acusadora (Ministério Público – Procuradores), chegando até a orientar as estratégias acusatórias. Por parte do Juiz Ladrão houve muita seletividade política nas investigações, instrumentalização do Judiciário para fins políticos com o intuito de tirar o ex-presidente na época, Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores) da disputa presidencial, favorecendo assim o segundo colocado que virou o presidente, Jair Bolsonaro.

O Juiz aceitou ser Ministro da Justiça de Bolsonaro como prêmio para a ação e depois saiu do governo denunciando a má gestão da pandemia na Covid, má gestão que já era denunciada pelos especialistas da saúde desde o primeiro momento. Anos depois, uma série de reportagens exclusivas do Jornal The Intercept, obtidas através de mensagens no Telegram das autoridades do Ministério Público, a parte acusadora, e Moro, o Juiz, foram obtidas através de um hacker e evidenciaram o caráter político da investigação. A Operação Lava Jato operou com lawfare e foi uma das armas do golpe contra a então presidenta Dilma Roussef. A operação demonstrou o uso do direito penal como arma política, quando tanques são substituídos por sentenças e quartéis por tribunais.

Isso permitiu a destruição de lideranças políticas, a criminalização seletiva da política e a abertura do caminho para a extrema direita. É a forma contemporânea e “limpinha” de golpe nas democracias liberais periféricas. Foi o nosso 7×1 da política, perdemos a eleição para um setor neo-fascista em ascensão e com ajuda de organizações internacionais, parte do grande agronegócio brasileiro e setores empresariais, Big Techs estrangeiras, Steve Bannon e companhia. Tempos sombrios vieram, uma condução desastrosa da pandemia, marcada pelo combate ao uso de máscaras, incentivo à aglomeração, recusa de vacinas, protocolos sanitários, e o charlatanismo ao fazer a apologia de um ‘remédio milagroso’, a cloroquina, que não era efetiva no combate à covid –

19. Isso nos rendeu uma das maiores taxas de letalidade do mundo. Ao todo, o Brasil registrou 39 milhões de casos e mais de 715 mil mortes, consagrando a condução genocida de Bolsonaro e seu governo de generais durante a pandemia como um dos maiores casos de fracasso e de catástrofe humanitária do período. Bolsonaro chegou a designar um militar sem experiência na área para ser o Ministro da Saúde, o General Pazuello. Era propagado como um especialista em logística, mas em um caso notório, o Ministério da Saúde enviou apenas 2 mil doses da vacina para o Amazonas, quando o planejado seria um número muito maior (78 mil), gerando grande repercussão e problemas na campanha de vacinação local. Em sua época de deputado, Bolsonaro dizia que a tortura e a ditadura no Brasil deveriam voltar, sugerindo que apenas um estado de guerra civil com ao menos 30 mil mortos ‘poderia consertar o Brasil’. No auge da pandemia, zombava do próprio povo em lives nas redes sociais e com deboche imitava as pessoas sufocadas e sem ar que estavam sofrendo entubadas e morrendo nos hospitais do Brasil.

Nesse contexto e com as provas da Vaza Jato, a sentença de Lula e outros políticos foram anuladas e houve uma eleição muito apertada. Bannon já tinha declarado que a eleição no Brasil seria uma das mais importantes para a direita mundial. Lula foi eleito e Bolsonaro, desde a criação da reeleição, se tornou o primeiro presidente a não ser reeleito.

Nesse contexto, Bolsonaro já vinha plantando a desconfiança para com o sistema eleitoral, afirmando – sem provas – que havia sido eleito em primeiro turno nas eleições de 2018 contra o segundo colocado, Fernando Haddad (PT). Bolsonaro já planejava seguir os passos de Trump, se inspirando na invasão do Capitólio nos EUA.

A prisão

Após perder a eleição presidencial de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores), Jair Bolsonaro se recusou a passar a faixa presidencial, cerimônia que marca a transição de um presidente para outro no Brasil, se recusou a reconhecer seu fracasso nas urnas, fugiu para os EUA e iniciou um processo de contestação radical das instituições democrático-burguesas brasileiras. Esse processo incluiu ataques sistemáticos ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas, mobilização de bases fanatizadas para pressionar por intervenção das Forças Armadas, planos conspiratórios para impedir a posse do governo eleito, com tentativa de assasinato do presidente, o vice e outras autoridades como o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Era o plano “Punhal Verde e Amarelo”. Os assassinatos foram planejados para ocorrer em 15 de dezembro de 2022, três dias após a diplomação de Lula no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A ideia era envenenar os alvos. Já no dia 8 de janeiro de 2023 o Brasil foi palco de um ataque, quando os pseudo patriotas invadiram e vandalizaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF).

A Polícia Federal, em operações como a Operation Tempus Veritatis, trouxe provas sobre a coordenação entre setores militares e bolsonaristas para planejar e orquestrar ações contra a ordem constitucional. Essas ações levaram ao julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que, em setembro de 2025, condenou Bolsonaro e outros membros militares da conspiração por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e outros crimes correlatos, resultando em penas que chegam a 27 anos de prisão para o ex-presidente.

Os defensores do bolsonarismo classificaram a atuação do STF como perseguição política. No plano internacional, lideranças como Donald Trump criticaram a condenação, em uma narrativa que mistura ideologia e interesses geopolíticos nas Terras Raras do Brasil e no nosso mercado interno. O fato é que pela primeira vez em cinco séculos, setores das Forças Armadas, historicamente tutelados pelo poder político e econômico da burguesia, foram enquadrados criminalmente por tentativa de golpe de Estado, com diversas provas robustas, documentação do plano, áudios, atas de reuniões e etc. Embora isso represente um fato novo no plano jurídico e institucional, ele não resolve as contradições de classe que colocam em xeque a própria definição de democracia no país. A democracia formal do sistema representativo burguês apenas regula as tensões entre facções da burguesia.

Houve uma capacidade do Estado burguês brasileiro de internalizar e neutralizar diversas crises que ameaçavam sua estabilidade estrutural. O momento histórico evidencia que a ordem capitalista não tolera, se não obtiver condições favoráveis e apoio internacional, em última instância, rupturas diretas que possam desorganizar a reprodução amplificada do capital, mesmo que isso signifique punir uma parte de sua própria elite ideológica e coercitiva. Para movimentos marxistas e anticapitalistas, o desafio é situar esses eventos não no terreno de um triunfo da democracia formal, e sim como uma articulação das contradições de classe no Brasil contemporâneo e uma quebra de braço entre facções da burguesia nacional. Um fenômeno no qual o Estado intervém para

assegurar a continuidade do sistema que oprime as classes trabalhadoras, mas sabe usar a máscara da ‘liberdade democrática’ pelo caminho.

Hitler Tropical?

O golpe militar de 1964 pode ser interpretado como uma expressão brasileira da via prussiana de desenvolvimento, ao bloquear reformas estruturais e promover uma modernização capitalista autoritária, conduzida pelo Estado e pelas classes dominantes, aprofundando a dissociação entre crescimento econômico e democratização social. O capitalismo se desenvolve sem ruptura revolucionária e as classes dominantes tradicionais (latifúndio, elites agrárias, burocracias estatais) se adaptam ao passo em que as massas populares ficam excluídas politicamente. Florestan Fernandes, sociólogo brasileiro, fala em “revolução burguesa sem burguesia revolucionária”, o que é praticamente um aspecto brasileiro da via prussiana. Chico De Oliveira, outro sociólogo, vem com a metáfora de que somos uma espécie de Ornitorrinco mostrando como o Brasil combina formas modernas de acumulação com estruturas arcaicas de poder e dominação, assim como o ornitorrinco combina características de mamífero e de outras espécies, como botar ovos e ter um esporão venenoso. O regime militar aprofunda esse ornitorrinco, combinando uma indústria pesada com o autoritarismo, tecnocracia moderna com a violência política e crescimento econômico com a superexploração do trabalho. Criou-se o mito desenvolvimentista do “crescer o bolo para poder dividir depois”, ou seja, o brasil tem que crescer economicamente, se industrializar, se desenvolver, mas continuamos com uma desigualdade abissal e com uma promessa de que ‘um dia a renda seria redistribuída de forma mais justa’. O desenvolvimento econômico permitiu uma parcela da sociedade acumular cada vez mais riqueza, o bolo econômico cresceu e a classe trabalhadora só ganhou migalhas. Somos uma das maiores economias do mundo e convivemos com desigualdades abissais.

O contexto do Brasil não permite a reprodução mecânica da experiência prussiana europeia. Aqui, a via prussiana se dá em condição dependente, subordinada ao imperialismo. O golpe de 64 não inicia esse processo, ele radicaliza uma tendência histórica já presente desde os anos 30 (Ditadura de Vargas, Estado Novo com tendências fascistas). Bolsonaro não é Hitler no sentido histórico (não liderou um partido de massas totalitário, não instaurou um Estado fascista pleno, nem conduziu uma guerra). Mas ele encarna um tipo de extrema-direita que compartilha traços estruturais do fascismo que foram adaptados às condições periféricas brasileiras por uma espécie de guru intelectual, o Olavo de Carvalho, que dizia que a Covid não existia e acabou morrendo de Covid. Por isso, “Hitler Tropical” funciona como categoria crítica, não como equivalência direta.

Elementos presentes no bolsonarismo

1  – Culto à violência e à morte

  • Exaltação da tortura e da ditadura
  • Defesa explícita da eliminação do inimigo
  • Naturalização da morte (pandemia como destino)

Aqui há afinidade direta com o darwinismo social fascista.

2  – Inimigo interno como eixo da política

  • Comunistas, esquerda, professores, artistas, indígenas, imprensa
  • Construção de um ‘nós’ que é moral versus ‘eles’, os degenerados.

Esse maniqueísmo paranoico é típico do fascismo clássico.

3  – Nacionalismo vazio e dependente

Diferente de Hitler, Bolsonaro:

  • fala em soberania
  • mas subordina o país aos EUA
  • entrega recursos estratégicos
  • destrói a indústria nacional

Por isso, é um fascismo subalterno sem projeto nacional real.

4  – Antidemocracia permanente

  • Ataques sistemáticos às instituições
  • Deslegitimação das eleições
  • Tentativa de mobilizar forças armadas e policiais

bolsonarismo não aceita limites institucionais, só os tolera enquanto não consegue rompê-los.

Conclusão

Boa parte do núcleo golpista está preso, mas ainda há um risco de anistia, de fuga internacional e de pressões eleitorais internacionais na eleição presidencial de 2026. Só com o povo na rua podemos garantir que a justiça seja feita num país que ainda precisa prender os financiadores da tentativa de golpe, remover bolsonaristas e o bolsonarismo das instituições, garantir mais participação popular no orçamento público e nas questões centrais do país que estão nas mãos de um congresso que é inimigo do povo, em boa parte lotado de bolsonaristas e políticos fisiológicos do chamado centrão, que não é formado por políticos do espectro do centro político, mas por políticos que a ideologia é não ter ideologia e se vender para qualquer grupo político que esteja no poder ou der mais dinheiro.

Existem movimentações no congresso para anistiar e ao mesmo tempo reduzir penas de diversos crimes hediondos, favorecendo o crime organizado e lideranças de facções criminosas, ao passo em que recentes investigações da Polícia Federal desnudam crimes do principal setor financeiro do país, a Faria Lima, que dita os rumos econômicos do país e estava lavando dinheiro para a principal organização criminosa do país, o PCC, Primeiro Comando da Capital, de São paulo.

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